Febre reumática, dor de garganta e cardiopatia: qual a relação?

Dor de garganta mal curada pode evoluir para doença cardíaca.

A palavra reumatismo logo nos remete às articulações, não é mesmo? Mas, febre reumática… existe febre nas articulações? Garganta e coração não são articulações, então, como pode essas áreas se relacionarem? Calma, lembre-se que o corpo humano é um grande sistema, por isso mesmo as partes distantes estão sim relacionadas umas às outras de alguma forma em maior ou menor grau.

Antes de mais nada, vamos dissociar febre de febre reumática. A primeira é sintoma e pode aparecer em função de uma série de doenças. Enquanto a segunda é uma patologia, ou seja, uma doença, ok?

Agora voltando aos itens citados no título, será que eles podem de alguma forma se associar a uma única doença? Vamos começar pela mais “simples”, a dor de garganta. Continue a leitura e descubra!

Dor de garganta

As faringitesamigdalites ou dores de garganta como costumamos chamar, são muito comuns, principalmente na infância. Mas será mesmo que esse é um problema inofensivo? ¹

Dores de garganta, como faringites e amidalites, mal curadas, podem causar febre reumática.

É comum ouvirmos as pessoas falando de tratamentos caseiros para as dores de garganta e até de automedicação. Por outro lado, também existem pessoas que agem corretamente e procuram um médico, porém, não seguem a prescrição ou interrompem o tratamento ainda nos primeiros sinais de melhora. Mas a verdade é que dores de garganta, como faringites e amigdalites, mal curadas podem causar febre reumática.

Contudo, nem toda e qualquer dor de garganta pode evoluir de tal forma. Nesse sentido, é preciso ter cuidado com as infecções causadas por bactérias estreptococos do grupo A – encontrada na garganta e na pele de pessoas saudáveis, mas que vez ou outra pode gerar uma infecção –, pois são elas que geram esse risco.

É importante frisar que essas infecções de garganta (faringites e amigdalites) são bem comuns, principalmente em crianças em idade escolar. Na maioria das vezes ocasionada por vírus, podem, no entanto, serem causadas por bactérias. Quando causada por bactérias cerca de 90%  tem como agente o Streptococcus pyogenes (um dos estreptococo beta-hemolítico do grupo A). E é justamente por isso que merecem atenção, afinal, as crianças nem sempre sabem explicar o que estão sentindo. 2, 3, 4

Vejamos quais os sintomas associados a infecção por essas bactérias, lembrando que esses sintomas tendem a surgir de modo repentino: 5

Sintomas da faringite causada por estreptococos

  • Dor de garganta;
  • Febre alta;
  • Calafrios;
  • Dores musculares;
  • Dor de cabeça.

Em crianças mais novas, é preciso ter ainda mais atenção, pois podem surgir dores abdominais, náuseas e vômitos ou outros sintomas inespecíficos.

O mais importante, e que requer atenção nas faringites e amigdalites causadas por bactérias estreptococos beta hemolíticos do grupo A, é que elas podem gerar uma resposta do organismo causando lesões em alguns órgãos. Tal resposta ocorre mais frequentemente quando essas infecções não são tratadas, ou não são tratadas adequadamente. E o que seria essa resposta do organismo?

O que é febre reumática?

A febre reumática é justamente a resposta do nosso organismo à infecção por estreptococos.

Em consequência da febre reumática podem ocorrer dores nas articulações.

Também chamada de reumatismo infeccioso, a febre reumática é uma doença inflamatória que se desenvolve em decorrência de uma infecção anterior provocada pela bactéria do estreptococos.

Ela pode afetar as articulações, a pele e até mesmo órgãos vitais, como o coração e o cérebro, por exemplo. 6
As causas exatas da febre reumática ainda não foram de todo esclarecidas pela ciência, mas sabe-se que existem alguns fatores de risco. Vamos conhecê-los?

Fatores de risco para febre reumática

  • Histórico familiar;
  • Tipos de bactérias do estreptococos;
  • Fatores ambientais;
  • Idade.

Estudos indicam que a causa para o surgimento da febre reumática pode estar no sangue. Assim, algumas pessoas podem carregar um ou mais genes que as tornam mais propensas a desenvolver a doença. Há também indícios de que certos tipos de bactérias do estreptococos têm maior probabilidade de levar à febre reumática, como as bactérias causadoras da escarlatina e da faringite estreptocócica. 6

No que se refere aos fatores ambientais, a ocorrência também pode estar associada a alguns fatores externos, como aglomerações, falta de saneamento básico e outras condições que podem resultar na transmissão e contaminação por bactérias.

Acesso à água tratada e saneamento básico pode evitar muitas doenças.

E um último fator de risco é a idade, uma vez que a febre reumática costuma aparecer com mais frequência em crianças e adolescentes dos 6 aos 15 anos de idade.

Como identificar os sintomas

Antes de conhecer os sintomas, é preciso lembrar que a febre é uma complicação, logo, seus sintomas aparecem cerca de duas semanas depois de uma dor de garganta mal curada. Ou seja, há uma associação entre as doenças. Agora, vejamos os sintomas. 7, 8

Lista de sintomas da febre reumática

  • Dor nas articulações;
  • Febre;
  • Dor torácica ou palpitações;
  • Movimentos espasmódicos e incontroláveis (coreia de Sydenham);
  • Erupção cutânea;
  • Pequenas elevações (nódulos) sob a pele.

É importante saber que os sintomas da febre reumática podem variar dependendo de quais partes do corpo se tornam inflamadas.

Como é o tratamento da febre reumática

O primeiro passo para o tratamento da febre reumática é a erradicação do estreptococos com o uso de antibióticos. Ao mesmo tempo em que, as manifestações articulares sem outras complicações podem ser tratadas com anti-flamatórios não hormonais. 2, 7

Para evitar que ocorram novos surtos após o controle da fase aguda, é necessário que sejam adotadas medidas de prevenção, nesse caso, deve ser iniciada o uso de antibióticos via injeções intramusculares em intervalos de até 21 dias ou de acordo com a indicação médica.

Dito isso, percebemos o quão fundamental é o diagnóstico correto e precoce dos casos de faringites ou amigdalites bacterianas entre crianças em idade escolar e o encaminhamento desses casos suspeitos para realização do tratamento mais indicado.

Cardiopatia

Por fim, chegamos ao último item que relacionamos no título: cardiopatia. Você consegue imaginar como problemas no coração podem estar relacionados às dores de garganta ou à febre reumática? 1, 8

Doenças cardíacas provenientes de dores de garganta podem acometer qualquer pessoa.

Como já falamos as dores de garganta oriundas de estreptococos são muito comuns. Sendo mais específicos, aproximadamente seis milhões de pessoas sofrem com essas infecções de garganta anualmente. Por outro lado, somente cerca de 0,3% dos casos desenvolvem a febre reumática aguda e, deste percentual, um terço dos pacientes apresentam cardiopatia reumática. ¹

As bactérias que acometem a garganta podem afetar algumas estruturas do coração como as válvulas cardíacas mitral, aórtica, tricúspide e pulmonar.

Quando atinge o coração, em geral, sente-se cansaço constante, falta de ar e a sensação de coração disparado. Por isso, a melhor maneira de saber se a febre reumática, fruto de uma dor de garganta mal tratada, causou algum dano ao coração é através de um ecocardiograma transtorácico (exame que se baseia na utilização de ultrassons para obter imagens em movimento do coração e dos vasos sanguíneos que lhe estão próximos). ¹

Retomando os sintomas, é importante saber que algumas crianças com inflamação do coração não apresentam sintomas imediatamente, e a inflamação passada é reconhecida anos mais tarde quando o dano cardíaco é descoberto. 8

A inflamação cardíaca tende a desaparecer aos poucos no prazo de prazo de cinco meses, em geral. Entretanto, ela pode danificar de modo irreversível as válvulas cardíacas, o que resulta em doença cardíaca reumática.

Desse modo, é preciso dizer que o desenvolvimento ou não de doença cardíaca reumática varia de acordo com a gravidade da inflamação cardíaca inicial e também se as infecções por estreptococos serem ou não tratadas. 8

Como age a cardiopatia reumática

Uma vez que a febre reumática atinge o coração, tanto o revestimento externo do coração (pericárdio) como o revestimento interno do coração (endocárdio) e as válvulas cardíacas podem ser danificados pela inflamação. 9

Contudo, a forma mais comum de doença cardíaca reumática afeta as válvulas cardíacas, em especial a valva mitral e pode levar vários anos para que o dano na válvula se desenvolva ou apareçam os sintomas.

Sobre a extensão dos danos, se for leve, ele não necessitará de tratamento; por outro lado, se for grave, pode ser necessário cirurgia para o reparo da válvula danificada. Já em casos em que a válvula cardíaca está muito danificada para ser reparada, deve ser substituída por uma válvula artificial.

A cardiopatia reumática pode levar a necessidade de cirurgia, inclusive uso de válvula artificial.

Nesse momento, é importante lembrar que a recorrência de episódios de febre reumática aumenta as chances de danos maiores ao coração. Por isso a prevenção é fundamental.

Como prevenir a cardiopatia reumática

Como vimos ao longo desse texto, a cardiopatia reumática é uma complicação da febre reumática que, por sua vez, surge de uma predisposição genética somada a uma infecção bacteriana mal tratada. Ou seja, temos uma relação de cadeia entre essas doenças.

Nesse sentido, o melhor a se fazer é tratar adequadamente, conforme prescrição médica, toda e qualquer infecção de garganta. Fazendo isso evitamos o risco de desenvolver a febre reumática e, consequentemente, de vir a ter problemas cardíacos em decorrência dela.

Tenha consciência, doença nenhuma é brincadeira. Nunca se automedique, procure sempre a orientação de um médico e siga à risca o tratamento por ele indicado.

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Colaborou com esse artigo:

Dr. Leonardo Ruffing

Infectologista – CRM/SP 129537


Referências bibliográficas e data de acesso

1 – Hospital Sírio-Libanês – 27/08/2020

2 – LOPES, A. C. el al. Tratado de Clínica Médica. Ed Roca. São Paulo, 2006.

3 – Anvisa – 27/08/2020

4 – Dráuzio Varella – 27/08/2020

5 – WIKIPÉDIA – 28/08/2020

6 – Minha Vida – 28/08/2020

7 – Biblioteca Virtual em Saúde – Ministério da Saúde – 28/08/2020

8 – MSD Manual – 28/08/2020

9 – AbcMed – 28/08/2020