Comorbidades do autismo: epilepsia, hiperatividade e outras

comorbidades do autismo

Nesse período do ano, em que o mundo inteiro promove a conscientização do autismo em abril, e celebra o dia do Orgulho Autista em junho, o nosso site está trazendo para você diversos artigos sobre o assunto. Hoje nós vamos falar sobre as comorbidades do autismo.

Comorbidade é um termo utilizado quando duas ou mais condições médicas são encontradas juntas. Ou seja, são patologias ocorrendo ao mesmo tempo. E como os autistas apresentam comorbidades neuropsiquiátricas com mais frequência, vamos te explicar quais são as comorbidades que normalmente afetam as pessoas que estão dentro do transtorno do espectro autista.

Entre os problemas mais comuns que podem se manifestar em uma pessoa autista estão: transtornos de ansiedade, epilepsia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e o transtorno desafiador de oposição (TOD). Quando essas comorbidades aparecem no autismo, é um desafio extra para a família. Mas saiba que existe tratamento e controle.

Esses problemas, em alguns casos, podem prejudicar a qualidade de vida da pessoa autista, já que se trata de condições que afetam a parte física tanto quanto a mental.

Conheça abaixo como essas comorbidades se apresentam e de que forma você, como autista,  pai, mãe, cuidador, tutor ou qualquer tipo de parente pode lidar.

Ansiedade, autismo e comorbidades

Ansiedade e hiperatividade: as mais comuns comorbidades do autismo

As dificuldades comuns ao autismo, podem causar constante sensação de ansiedade na pessoa com TEA. A ansiedade encontra terreno num autista porque as atividades cotidianas, como ir à escola, fazer amigos, andar na rua, etc., são coisas que podem causar estresse. Se for o caso em que tal atividade represente uma mudança de rotina, a situação pode piorar. ¹

É preciso saber que a ansiedade é normal do ser humano, ela pode ocorrer em todos nós, principalmente em situações de perigo. Mas quando ela passa a ocorrer por causa de situações atípicas e/ou de maneira exagerada, é preciso atenção e acolhimento. ²

Pode ser que seja preciso acompanhamento de um psicólogo e avaliação de outros profissionais para prescrição de medicamentos. Mas atenção: não utilize medicações a fim de combater crises de ansiedade sem que ele seja realmente necessário e receitado por um profissional.

TDAH

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade é uma comorbidade que muito se confunde com o autismo. Muitos pais e mães acabam julgando determinado comportamento sendo como uma coisa ou outra. Mas algo muito simples pode ajudar a diferenciar autismo e TDAH: a interação social.

O TDAH é caracterizado por constantes inquietações, dificuldade de manter atenção, impulsividade e desatenção. ³

No caso, quem tem apenas TDAH não vai apresentar as condições primordiais do autismo, ou seja, atraso na linguagem e dificuldades de interação. Já a criança que é autista pode apresentar o TDAH, mas à sua maneira. Como tiques nervosos, agitação motora mais intensa, ficar andando de um lado pro outro, a falta de atenção ao que está sendo exposto, entre outras coisas. 4

Na dúvida, consulte um profissional. Só um diagnóstico clínico vai poder responder se a criança tem apenas o TDAH ou se o transtorno é uma das comorbidades do autismo.

TOD

A sigla TOD significa Transtorno Opositivo Desafiador. Uma criança com TOD faz justamente isso: se opõe e desafia às pessoas, mesmo que ela esteja errada ou que a lógica da questão não faça sentido. É alguém a quem é bastante difícil convencer, dar uma ordem. A criança com TOD também apresenta vários sinais de agressividade, falta de controle emocional e intolerância às frustrações.

Os sintomas do TOD podem acontecer em qualquer fase da vida, mas são bem mais comuns entre os 6 e os 12 anos de idade. Pesquisas apontam que 28% dos autistas preenchem critérios para TOD e 68% podem apresentar o TOD ao longo da vida. ³

Tratamentos para TOD e TDAH

Os tratamentos, tanto no TDAH quanto no TOD, segundo especialistas, devem consistir e três coisas:

  • Medicação: para autorregulação do humor diante das frustrações
  • Psicoterapia: para corrigir os comportamentos (ajuda muito a família dar bons modelos e ter paciência)
  • Apoio escolar: a escola deve apoiar o aluno para que se engaje mais.

Para saber mais sobre TDAH e TOD e a relação com o autismo, clique aqui.

Epilepsia

Epilepsia: uma grave comorbidade do autismo

A epilepsia é uma doença neural que ocorre devido a uma alteração temporária no funcionamento do cérebro. Basicamente, o cérebro “desliga” por um tempo, e envia sinais errados para o corpo. Por isso, as crises de epilepsia acontecem sem aviso prévio de algum sintoma e, do mesmo jeito, elas param. 5

Estudos estimam que pelo menos 30% de todas as crianças autistas possuem, também, epilepsia. E a causa de eles ocorrerem juntos tem diferentes razões: 6

Existem crianças que apresentam tanto o autismo como a epilepsia por terem herdado as duas geneticamente. Outras podem ter desenvolvido a epilepsia por conta de uma patologia cerebral, surgida pós autismo, como a rubéola, a síndrome do X-frágil ou a meningite.

Como identificar epilepsia como comorbidade do autismo

A crise de convulsão é o que há de mais visível na epilepsia, muitas vezes assustando quem estiver por perto. Mas existem sinais mais brandos que podem sinalizar a presença da epilepsia em crianças autistas. Uma epilepsia não tratada, pode causar danos neurológicos irreversíveis e comprometer as respostas da criança às terapias de tratamento do autismo. 7

Confira situações em que você deve ficar de olho: 7

  • Movimentos anormais
  • Se em algum horário a criança fica, repentinamente, desligada de tudo – mesmo que seja bem rápido
  • Presença de contrações musculares rápidas
  • Quando a criança aparentemente perde a consciência em algum momento

Porém, nem toda convulsão é, necessariamente, epilepsia. Em todos os casos acima, é essencial consultar médico especialista.

Epilepsia tem cura?

A maioria dos pacientes terá de conviver por toda a vida com a doença, utilizando medicamentos anticonvulsionantes que não curam, mas controlam a epilepsia. Esses remédios coíbem as descargas cerebrais anormais, que dão origem às crises epilépticas.

Entretanto, a resposta é SIM. A epilepsia tem cura, mas apenas em alguns casos.

Por exemplo, se a pessoa passar dois anos, no mínimo, sem apresentar crises e a medicação for interrompida sem prejuízos, pode significar que houve a cura. 8

Outra possibilidade é um procedimento cirúrgico que pode retirar do cérebro a causa das crises. Esse avanço ainda é recente, mas pesquisas de um hospital da Inglaterra constatou uma eficácia em quase 50% dos pacientes que foram operados. 9

Já no caso do assunto que estamos abordando, a epilepsia em crianças autistas, a cura pode ocorrer devido ao próprio amadurecimento do cérebro. Entretanto, é algo que ocorre apenas em casos específicos. 8

Outras comorbidades do autismo

Além da epilepsia, da ansiedade, do TOD e do TDAH, há outras comorbidades do autismo que podem tornar a qualidade de vida mais complicada e atrapalhar o desenvolvimento destas crianças. São elas:

Transtorno bipolar

Pesquisas apontam que o transtorno bipolar pode estar presente em indivíduos com autismo. Normalmente, o transtorno se manifesta com oscilações de humor, com períodos que a pessoa apresenta um estado eufórico e inquieto por uns dias, semanas ou meses e, de repente, de forma gradual ou abrupta, ocorre uma alteração desse estado de humor para um quadro de depressão, com diferentes intensidades e com períodos que podem durar dias, semanas ou meses. Em crianças e pessoas com autismo, tanto o transtorno bipolar como a depressão podem se manifestar de forma não tão clássicas. 10

Enxaquecas

As enxaquecas estão comumente ligadas com o o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Consequentemente estão ligadas ao autismo. Mas, diferente de uma simples dor de cabeça, a enxaqueca tem os seguintes sintomas: 11

  • Distúrbios visuais
  • Vômito
  • Náusea
  • Tontura
  • Extrema sensibilidade a som, luz e cheiro

disturbios do sono

Distúrbios do sono

Esse é um problema que afeta um número alto de crianças autistas, em torno de 40% a 80%. As queixas são sobre acordar durante a noite, não conseguir manter um total saudável de horas dormidas e inquietações no período de descanso.

Devido à variedade ampla que cada autista pode ter em relação a outra pessoa com TEA, o distúrbio do sono pode ter motivações diferentes para cada um. Assim, só uma avaliação médica pode indicar qual exatamente é o gatilho que provoca o distúrbio do sono como uma das comorbidades do autismo.

É uma comorbidade que frequentemente pode piorar se somada a outras, como ansiedade e TDAH. Para promover um bom período de sono ao autista criança, é importante criar uma rotina de preparação para a hora de dormir, como dar banho e depois contar uma história com a criança já cama. 12

Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) 13

O TOC é mais uma das comorbidades do autismo que se confunde com comportamentos característicos do autismo. Isso porque a pessoa com TEA pode desenvolver manias e obsessões com temas e objetos.

O que se sabe, até então, é que o TOC é uma comorbidade que pode estar presente em indivíduos com TEA, com estudos de prevalência variando de 17 a 35%. E por conta da presença de rituais e comportamentos repetitivos e compulsivos, muitos indivíduos podem ser erroneamente diagnosticados com TOC e são pessoas com autismo.

Todavia, a medicina ainda vem buscando adaptar os tratamentos para TOC enquanto comorbidade do autismo, já que são casos específicos em que o indivíduo possui as duas patologias. Se esse é o caso que você está enfrentando, continue buscando medicamentos e terapias adaptadas para a situação.

Apraxia da fala 14

Apraxia da fala é um problema de causa neurológica em que, quando a criança precisa se expressar, ela não consegue pronunciar as palavras com precisão ou de forma consistente.

Muitas vezes, a diferença desse distúrbio para o autismo é sutil. No TEA, a criança demora a desenvolver a linguagem pois diferentes aspectos da comunicação estão prejudicados. Já na apraxia, a criança sabe o que quer dizer, mas o cérebro não envia direito os sinais que fazem a mandíbula, a musculatura orofacial e a língua trabalharem. Quanto mais difícil for a palavra, mais complicada se torna a comunicação pela apraxia.

O diagnóstico mais preciso é muito importante, afinal, nem todas as crianças que tiverem atraso na linguagem terão apraxia.

Comorbidades do autismo: é possível viver com qualidade

Então, o mais importante diante de tudo isso é deixar bem claro que o autismo, por si só, não configura uma doença, mas sim um transtorno que prejudica a comunicação, a interação social e os interesses restritos. Os autistas apresentam condições para aprender, produzir, realizar atividades de vida diária e ter
autonomia, sempre de acordo com as limitações impostas pelo transtorno. E devem contar com o apoio da família e de todos ao redor para viver com qualidade e ser motivado todos os dias.

Para finalizar nosso artigo de hoje, indicamos uma visita ao Autismo em Dia, que traz muitas discussões sobre o tema e muitas histórias reais de autistas, pais, mães, irmãos e cuidadores!

Autismo em Dia

Colaborou com esse artigo:

Dra. Fabrícia Signorelli Galeti
Psiquiatra – CRM 113405-SP

Referências bibliográficas e a data de acesso

1. Entendendo Autismo – 07/04/2020

2. Mayra Gaiato – 07/04/2020

3. Neuro Saber – 07/04/2020

4. Mayra Gaiato – 07/04/2020

5. Liga Brasileira de epilepsia – 07/04/2020

6. Autismo e epilepsia: modelos e mecanismos (artigo científico) – 07/04/2020

7. Instituto Farol – 07/04/2020

8. Liga Brasileira de Epilepsia – 07/04/2020

9. Minha Vida – 07/04/2020

10. Entendendo Autismo – 08/04/2020

11. Focus TDAH – 08/04/2020

12. CPAP Vital – 08/04/2020

13. PROGENE – 08/04/2020

14. Tismoo – 09/04/2020